Medo da desumanização


Quando liguei a televisão, estavam falando sobre o massacre em uma escola em Realengo, no Rio. Fiquei horrorizada, estarrecida. Inconscientemente acho que é por isso que tantas e tantas vezes evito ligá-la, pois parece que, de uns tempos para cá, ela só noticia desgraças e dor. Não que eu queira me alienar, longe disso, mas é que há momentos em que meu ser parece não suportar tais fatos, necessitando se isolar, para se poupar, para se proteger mesmo. É como se fosse um disjuntor que desarma quando há perigo à vista. O meu tem desarmado muito. Pensei até que ele precisasse de ajuste, por estar funcionando mal, ou que necessitasse ser trocado. Há quase 36 anos está em uso. Só que desconfio que não há nada de errado com ele. O mundo é que tem andado meio louco e perdido, cheio de desgraças e de mazelas. As alegrias não são noticiadas porque infelizmente se encontram em escassez.

Tento não chorar nem deixar que isso abale profundamente o meu dia, a minha rotina, mas não consigo. Absorvo tudo e me dói saber que crianças indefesas morreram e outras se encontram feridas, porque um maluco resolveu entrar atirando nelas, do nada, justamente num lugar em que deveria apenas instruir, gerar e regar sonhos -- a ESCOLA! A única mudança que eu verifico em mim é que tenho pena também do atirador, quando sentiria, há alguns meses, muita raiva e revolta. Sei que ele também é vítima. E isso hoje, com essa consciência, me dói ainda mais, confesso. Dói como professora, dói como mãe, dói como ser humano. Mas se for analisar diretinho, que bom que me dói (toda), porque o dia em que eu me acostumar a ver fatos como este e isso não mexer comigo, estarei morta. Sim, desumanizar-se, para mim, é morrer!

(Texto postado em 07/04/11 em meu blog InquietAÇÔES)

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